O luxo brasileiro, tantas vezes invisível aos próprios brasileiros, é valorizado no exterior. O mobiliário nacional é um exemplo: Sérgio Rodrigues, com sua poltrona Mole, tornou-se ícone do design moderno; Joaquim Tenreiro, pioneiro no uso da palhinha e da madeira tropical, é disputado em leilões internacionais; Lina Bo Bardi, com a Bowl Chair, figura em coleções de museus europeus. Essas peças, criadas com engenho e simplicidade, são vendidas como obras de arte em Nova Iorque e Paris, enquanto por aqui ainda são desconhecidas.
No campo dos tecidos, a seda brasileira está entre as melhores do mundo. Produzida principalmente no Paraná, em cidades como Ponta Grossa e Cascavel, onde se concentram as plantações de amoreira e a criação do bicho-da-seda. Essa fibra é exportada em larga escala. Estimativas recentes apontam para cerca de 2,2 mil toneladas de casulos por ano, embora a produção tenha diminuído em torno de 77% nas últimas duas décadas. Ainda assim, mais de 95% da seda nacional segue para o exterior, abastecendo grifes internacionais de alta costura. Há registros de que maisons como Hermès, Dior e Armani já incorporaram a seda brasileira em coleções específicas, atraídas pela qualidade. O comércio internacional movimenta cifras expressivas, reforçando uma tendência de vários setores no Brasil: exportamos o requinte e consumimos a imitação. Na grande dinâmica econômica do mundo, o Brasil é o fornecedor de ótima matéria-prima que nunca chega aos próprios brasileiros.
No universo da moda católica, observa-se uma busca por reproduzir designs europeus mais pesados que não se adaptam ao clima tropical. Assim, surgem roupas que atendem às diretrizes da virtude da modéstia no design, mas falham em ser compatíveis com o país em que vivemos. Não no design, veja bem, mas na escolha dos tecidos. Encontrar vestidos que atendam à modéstia em linho puro, algodão puro de qualidade ou seda nacional é tarefa difícil. O resultado é uma produção que ignora a riqueza de fibras locais e acaba um pouco sem identidade própria. No entanto, todos esses pontos são aceitáveis, uma vez que é um mercado novo, mas ainda assim causa certa preocupação a lentidão dos responsáveis em observar esses aspectos referentes aos tecidos 100% naturais, que sempre foram característica de roupas produzidas em regiões tropicais.
Se voltarmos às primeiras fotografias e filmagens feitas em São Paulo e Rio de Janeiro, já em meados de 1900, veremos homens em ternos de algodão e mulheres em vestidos igualmente de algodão, quase sempre em tons claros. O algodão permitia pudor sem sacrifício térmico. Isso mostra que já tivemos uma moda condizente com nosso clima, algo que se torna mais urgente se considerarmos as sobrecargas térmicas que estamos vivendo por conta do asfalto e do ar-condicionado, que geram uma massa de calor em regiões urbanas, somadas aos apartamentos e casas com pouca ventilação cruzada, paredes finas e layouts que também não são condizentes com o Brasil.
É nesse ponto que se abre uma reflexão sobre o próprio termo moda modesta, recentemente questionado de forma desnecessária. Do ponto de vista da língua portuguesa, trata-se de uma construção gramatical clara: “moda” é o substantivo que designa o campo do vestuário, enquanto “modesta” é o adjetivo que o qualifica, indicando um vestuário marcado pela sobriedade, pelo pudor e pela simplicidade. Essa formulação, além de correta, já aparece historicamente em textos ligados ao vestuário cristão, sobretudo no universo católico, para designar roupas que conciliam imagem e aparência ao recato. Na verdade, o entendimento do termo é bem simples.
Voltando ao tema, podemos desdobrar essa reflexão sobre o termo. Sendo o Brasil o maior país católico do mundo, haveria espaço para que essa moda modesta se desenvolvesse com identidade própria, nascida de nossa realidade tropical. Não se trata de romper com tradições, mas de, de forma realmente honesta, aplicá-las ao clima, ou seja, não mudando os tamanhos, as medidas de pudor e recato, mas sim mudando o tecido. Uma moda modesta brasileira, feita de tecidos naturais, poderia unir a nossa amada tradição ao frescor, ao pudor e ao conforto térmico. Vestidos em algodão, linho, ternos de linho, blusas e camisas femininas em seda nacional: peças que mostram a nossa história, brasileira e católica, feitas para o nosso clima, sem perder a reserva que a modéstia exige.
Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação pela Pontifícia Universidade Católica. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural pela Academia de Belas Artes de São Paulo. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).








