“E tudo submeteu debaixo de seus pés e constituiu-o, acima de tudo, Cabeça da Igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que enche tudo em todos.” - Efésios 1, 22-23
Política Eclesiástica - Ponto II
Professora Ana Paula Barros¹
A distinção entre monarquia e democracia ou república é de importância radical para compreender a política eclesiástica. Na democracia ou república, o poder emana do povo e é exercido por meio de mecanismos de participação direta ou indireta, como votos, pressão midiática, abaixo-assinados e manifestações coletivas. A lógica democrática valoriza a alternância de poder, a representatividade e a capacidade de o povo influenciar as decisões por meio de instrumentos institucionais e sociais. Na monarquia, por outro lado, o poder é concentrado em uma figura central, o monarca, e a participação popular se dá de forma distinta, geralmente indireta e mediada por estruturas hierárquicas. A legitimidade do poder monárquico não depende de votos ou da pressão das massas, mas da tradição, da sucessão e da autoridade reconhecida. A comunicação política, nesse modelo, não se apoia em mecanismos de mobilização popular, mas em conselhos, instituições e canais formais que sustentam a estabilidade da ordem.
A Igreja Católica organiza-se como uma monarquia eletiva, como já vimos, um modelo singular que combina elementos da eleição com a autoridade monárquica. Reiterando, o Papa é escolhido pelo Colégio de Cardeais, mas, uma vez eleito, exerce poder monárquico pleno. Assim, a política eclesiástica não se confunde com a lógica democrática ou republicana: nela, a participação dos fiéis não se dá por votos ou pressão popular, mas pela escuta por parte dos padres e pelo discernimento espiritual vindo de um olhar atento, que são considerados canais legítimos de influência na condução da Igreja.
A ideia de monarquia eletiva encontra paralelos na Bíblia e na tradição dos hebreus. No Antigo Testamento, a escolha dos reis Saul e Davi foi marcada pela unção profética e pela intervenção divina, numa eleição que não era apenas política, mas também religiosa. Assim, a monarquia eletiva eclesiástica guarda semelhança com essa tradição: a escolha do Papa é entendida como um ato de discernimento espiritual, em que os cardeais buscam a inspiração do Espírito Santo para indicar o sucessor de Pedro. O que não significa que não existam tentativas de manejar a vontade de Deus em prol da vontade humana. No entanto, a vontade humana, sendo inferior em força e poder diante da divina, mesmo que se manifeste, ainda estará, de certa forma, subjugada à vontade divina na ordem geral das coisas, ainda que, em uma ordem menor, isso não fique tão evidente.
Já a estrutura de uma monarquia não se limita ao monarca, mas envolve também o que nomeamos nobreza e aristocracia, que desempenham papéis fundamentais na manutenção da ordem e na condução da vida política. A nobreza, tradicionalmente composta por príncipes e duques, representa a proximidade imediata do poder, atuando como conselheiros diretos do soberano e guardiões da unidade. A aristocracia, formada por famílias influentes e autoridades locais, exerce funções administrativas e garante a estabilidade do governo em diferentes regiões. Essa divisão de responsabilidades cria um equilíbrio entre a autoridade central e a participação das elites, assegurando continuidade e legitimidade ao sistema monárquico.
Na monarquia eletiva eclesiástica, essa lógica se traduz de maneira espiritual e institucional. Os cardeais são considerados príncipes da Igreja, constituindo uma verdadeira nobreza eclesiástica. Sua missão não é apenas escolher o Papa, mas também aconselhá-lo, participar de consistórios e colaborar na definição das grandes diretrizes da Igreja universal. Paralelamente, existe uma aristocracia formada por bispos e superiores religiosos, que governam dioceses e institutos, garantindo a aplicação das decisões em nível local e regional. Essa aristocracia eclesiástica assegura que a vida da Igreja se mantenha ordenada e fiel à tradição, mesmo diante das mudanças de época.
Como acontecia no medievo, essa estrutura ainda preserva a exigência de que nobres e aristocratas sejam, de certa forma, guardiões do povo e exemplos de virtude, nobreza espiritual e caráter. São aqueles que, vindos do meio do povo, assumem a responsabilidade de cuidar dele ou, ao menos, assim deveria ser.
No que tange à comunicação, principal objeto de análise deste escrito, é preciso estabelecer primeiro que a participação não segue os moldes democráticos ou republicanos, baseados em pressão popular ou mobilização de massas. A Igreja não é uma democracia.
Isso posto, cabe estabelecer que, segundo na monarquia, sobretudo a eclesiástica, a comunicação se dá por canais institucionais oficiais e espirituais. A política eclesiástica se sustenta em uma lógica própria, distinta da política civil, voltada, a princípio, para a preservação da unidade e da fidelidade à missão. No entanto, é válido salientar que a unidade não significa ausência de divergência ou de opiniões distintas; trata-se de uma unidade que acolhe essas diferenças como parte natural da vida comunitária. Assim, o discurso de defesa da unidade não deve ser entendido como um "mecanismo de contenção" ou de silenciamento, mas como um convite à fala e à escuta respeitosa e à busca comum da Verdade. A história da Igreja mostra que, quando se tenta ignorar ou afastar vozes críticas por motivos político-partidários ou pessoais, frequentemente surgem divisões. Infelizmente, essa atitude ainda é recorrente em alguns contextos eclesiásticos, sobretudo no Brasil. Muitas situações poderiam ser resolvidas com mais serenidade se houvesse abertura para escuta e autorreflexão por parte do clero.
Na política civil, especialmente em democracias e repúblicas, como vimos, os meios de comunicação política incluem pressão midiática, abaixo-assinados, votos e manifestações públicas. Esses instrumentos permitem que a voz popular seja ouvida de forma direta e que influencie as decisões dos governantes. Já em uma monarquia, e de modo particular na monarquia eletiva eclesiástica, tais mecanismos não possuem a mesma eficácia e muitas vezes não são bem recebidos.
Os padres, em geral, são formados nos seminários para discernir e conduzir a pastoral sem se deixar guiar por pressões populistas ou de massas. Por isso, iniciativas que buscam mobilização popular não encontram espaço efetivo dentro da estrutura monárquica da Igreja. A comunicação, nesse contexto, se dá por meios próprios: diálogos pastorais oficiais, cartas e documentos oficiais, consultas internas oficiais. Esses canais são institucionalizados e seguem uma ordem hierárquica, na qual o parecer clerical geralmente antecede e condiciona o parecer dos leigos.
Para o leigo, os meios de comunicação disponíveis são essencialmente mediadores: sua voz precisa passar pelo clero para alcançar instâncias superiores, ponto também já mencionado. Isso significa que, na prática, a escuta dos fiéis depende da disposição dos padres e bispos em transmitir suas preocupações. Embora existam espaços de participação mais direta, como conselhos pastorais e assembleias diocesanas, a estrutura monárquica favorece o peso da autoridade clerical sobre a opinião popular. Assim, o leigo tem uma influência extremamente indireta e espiritual.
Os leigos, ao buscar participação, devem considerar com bastante atenção que uma comunicação eficaz na Igreja passa por canais institucionais oficiais e espirituais, e não por mecanismos de pressão típicos da política civil. Nesse contexto, torna-se essencial destacar a importância da diplomacia.
Os meios oficiais constituem os canais legítimos de participação, quer os leigos gostem ou não. Ainda que, à primeira vista, possam parecer pouco eficazes diante de interesses internos ou resistências político-partidárias existentes dentro da dinâmica eclesiástica, são justamente esses instrumentos que asseguram que a comunicação seja reconhecida como válida e que tenha peso dentro da estrutura monárquica da Igreja. As ações populares podem gerar mobilização social geral, mas não são reconhecidas como válidas pela hierarquia (e raramente penetram as realidades pastorais com efetividade) e, normalmente, acabam produzindo um efeito local contrário ao esperado. Daí a falta de harmonia entre os movimentos gerais e as vivências pastorais em um mesmo país, porque os leigos movem o social e o clero o pastoral, e cada um está tracionando, de certa forma, intencionalmente ou não, para um lado.
A diplomacia, nesse sentido, não é apenas uma questão de forma, mas de eficácia: somente por meio de interações respeitosas e oficiais — insisto na palavra "oficiais" — é possível que a voz dos leigos seja ouvida e integrada ao discernimento eclesial. Mesmo que não seja acolhida, mesmo que não produza efeitos imediatos, os requerimentos precisam ser apresentados repetidamente, sempre de maneira oficial, com arquivamento em cópia tanto do pedido quanto da resposta, quando houver. Atualmente, de modo geral, as autoridades eclesiásticas podem alegar facilmente que nunca receberam uma solicitação oficial, por meio de carta oficial, a respeito dos assuntos hoje tão debatidos nos meios de comunicação aberta, e esta é uma bela falha de método por parte dos leigos.
No contexto diplomático da política eclesiástica, seguir o método é mais importante do que obter uma resposta imediata. O método correto, veja bem, gera uma sequência de registros históricos: tanto das solicitações dos leigos às autoridades quanto das respostas ou da ausência delas. Oficialmente, esse é o único poder do leigo dentro da política eclesiástica (extremamente esquecido ou ignorado pelos leigos). A outra forma de participação se dá pela atuação cultural, que complementa e amplia sua presença na vida da Igreja.
A proposta deste tópico é enfatizar a necessidade de uma comunicação mais compatível com a estrutura da Igreja. Uma estrutura monárquica. Essa estrutura, querida por Nosso Senhor, também protege o povo ao atribuir ao clero, e somente ao clero, a responsabilidade pelas decisões.
"A Igreja é Santa: porque Jesus Cristo, seu Fundador, é Santo; Santo é o Espírito que vivifica; Santa a sua Doutrina; Santos os seus Sacramentos; Santos são muitos dos seus membros." - Catecismo Essencial, 1987
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¹Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)






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