A moda pertence ao território da linguagem não verbal, é verdade. Não por acaso, documentos oficiais do Papa Pio XII citam diversas vezes a moda, a modéstia e o papel do designer.
No mercado internacional, ocorreu uma mudança que talvez passe despercebida para muitos brasileiros, mas que me chamou bastante atenção: o Brasil começou a ser visto como luxo.
Isso significa uma alteração na imagem que alguns países têm do Brasil, associando-o a alguém que aproveita a vida, com tempo livre. Esse Brasil imaginado participa de um estilo de vida aspiracional. Veja, por exemplo, o desfile da Chanel em Paris: o tema foi liberdade. A maison traduziu essa ideia nas peças com referências ao lazer, esportes e viagens, reforçadas pela curadoria musical.
No cenário geral, não chega a ser surpresa. Os sinais dessa associação já vinham surgindo discretamente: o interesse dos coreanos pela bossa nova, playlists americanas intituladas old money recheadas de músicas brasileiras, e a abertura da loja da Farm Rio em Nova York, felizmente recebida como marca de luxo.
Voltando ao desfile da Chanel: as modelos usavam peças menos estruturadas, os clássicos da maison apareceram em novos tecidos e o logo surgiu fortemente em diferentes formas. Já a Dior, conhecida pelos vestidos de princesa, apresentou criações fluidas e plissadas, com cinturas baixas, flores na cintura típicas dos anos 1920 e franjas. O nome da marca apareceu em destaque nos arcos de cabelo.
Ao meu ver, ambas as maisons sinalizam um afastamento temporário da alfaiataria e uma certa anti- aversão aos logos. Os desfiles reforçam a ideia de que, quando símbolos de status se tornam acessíveis, os ricos migram para aquilo que permanece exclusivo ou simplesmente fazem o oposto. Nesse caso, o luxo está na própria vida encenada nas passarelas: tempo livre, viagens e esportes em horários variados.
Curiosamente, o desfile da Chanel me lembrou Ralph Lauren, enquanto a Dior me lembrou a Chanel dos anos 20.
E o que isso nos interessa? Interessa, no que se refere aos estudos culturais, pelo fato de que, no Brasil, recentemente, os códigos de marca foram usados para diversas finalidades além de gostar daquela marca ou de colecionar determinadas coisas. Esses códigos, para alguns, veja bem, viraram uma receita para ser visto de determinada forma. O que, em si, não representa problema algum.
Acontece que, como era de se esperar, as próprias marcas reagiram no sentido oposto. Maisons conhecidas por peças estruturadas e de alfaiataria colocaram o casual e até aquela horrenda calça rasgada em jogo. Certamente isso, em algum momento, chegará às massas, ou seja, às pessoas comuns. Talvez, em pouco tempo, vejamos surgir outros códigos associados ao suposto tempo livre e às viagens, embora seja mais difícil reproduzir a vida em si. Diferente da compra de uma peça de alfaiataria, isso exige uma mudança de praça e de preço.
No mercado existe essa expressão: o luxo tem praça e preço específico. Ou seja, uma classe social, uma certa capacidade de disponibilidade e um preço alto. Um livro de capa dura, por exemplo, não é luxo, porque tem acessibilidade fácil por disponibilidade e preço; tem uma praça ampla e preço acessível. O mesmo vale para todos os outros produtos. Assim, o que ocorre é, na verdade, a venda de um produto com percepção de luxo.
Agora podemos destrinchar o que isso tem a ver com a nossa história brasileira. Quando Dom João voltou para Portugal, ele raspou os cofres do Brasil. Dom Pedro I começou um reinado sem dinheiro para realizar seu natural empreendedorismo. Sempre que recordo essa parte da história, não consigo deixar de pensar que, de certa forma, essa inanição financeira, somada ao sofrimento da escravatura, ao sufocamento da natural generosidade indígena pela comercialização e à própria corte portuguesa, retratada pelos ingleses como sem asseio enquanto os brasileiros eram asseados, gerou, talvez, essa nossa fixação nacional pela aparência e pela limpeza de tudo em vestes de algodão branco.
Tudo isso junto certamente gerou essa nossa fixação brasileira pela forma como somos vistos e por, finalmente, não termos impasses financeiros. Nós somos mais definidos pela história do que por qualquer outra coisa. A nossa história nos dá os horizontes; temos certa programação histórica para trilhar. A filosofia não visa à solução, a filosofia visa ao conhecer, ao olhar para. Isso já nos oferece, ao menos em forma de cogitação, a possibilidade de vislumbrar outros horizontes históricos para o país.
Ao avaliarmos a história, mesmo com a influência da educação francesa, portanto da cultura francesa que justamente preza o oposto do citado, por tanto tempo não deixamos esse traço como brasileiros. É sinal de que realmente está profundamente ligado à trama da identidade nacional. Mas nem todas as linhas dessa trama são boas para nós, brasileiros.
¹Ana Paula Barros
Especialista em Educação Clássica e Neuro Educação. Graduada em Curadoria de Arte e Produção Cultural. Professora independente no Portal Educa-te (desde 2018). Editora-chefe da Revista Salutaris e da Linha Editorial Practica. Autora dos livros: Modéstia (2018), Graça & Beleza (2025).
Possui enfática atuação na produção de conteúdos digitais (desde 2012) em prol da educação religiosa, humana e intelectual católica, com enfoque na abordagem clássica e tomista.
Totus Tuus, Maria (2015)





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